Os aposentos preservados em Valdocco testemunham uma história que os retratos de Dom Bosco raramente contam. Antes da enfermidade final, o fundador dos Salesianos atravessou febres, crises respiratórias, dores persistentes e longas convalescenças. Em cada etapa, a obra que criara precisou aprender a cuidar dele.
Em um estudo enviado ao Porta Piemonte, Dom Enrico Lupano, sacerdote salesiano, reúne as Memórias do Oratório, as Memórias Biográficas, cartas e testemunhos de pessoas que acompanharam Dom Bosco. Sua leitura desloca o foco do herói sempre em movimento para o homem que precisou aceitar cuidados, interromper viagens e confiar a obra aos companheiros.
Antes do sacerdote incansável, um jovem de saúde vulnerável
O relato de Lupano começa na infância. Segundo uma tradição que ele recolhe, Mamma Margherita teria levado João ainda pequeno, com febre alta, ao santuário da Madonna dei Bastioni, em Villanova d’Asti. Não é um prontuário médico, mas uma lembrança da família e do lugar. Anos depois, a morte de Dom Giovanni Calosso, seu protetor, o afetou tanto que a mãe o mandou passar um tempo com o avô em Capriglio.
Ao estudar em Chieri, João Bosco lia até tarde da noite. Nas próprias Memórias do Oratório, lembraria que o hábito prejudicou sua saúde por anos. A morte do amigo Luigi Comollo, durante o seminário, e uma experiência que descreveu como aparição o abalaram profundamente; em seguida veio outra doença grave. Lupano menciona interpretações posteriores para aquele episódio, mas elas não autorizam um diagnóstico retrospectivo fechado.
Já sacerdote em Turim, sua condição era conhecida dos mais próximos. Dom Giuseppe Cafasso chegou a desaconselhá-lo a partir como missionário: os transtornos de estômago que sentia até em uma carruagem fechada tornariam a viagem marítima impraticável. O conselho revela uma tensão que reapareceria muitas vezes: a disposição de Dom Bosco para trabalhar era maior que sua resistência física.
Quando a marquesa pediu que ele parasse
Nos anos em que o Oratório procurava um lugar, Dom Bosco dividia as forças entre os jovens, as atividades pastorais das obras de Julia Barolo e a escrita noturna. Tossia, expelia sangue e atravessava períodos de exaustão. Em outubro de 1845, a caminho de um descanso nos Becchi, desmaiou ao chegar a Chieri. Passou quatro dias de cama; depois, mesmo quando recuperou alguma força, continuaram os vômitos. Voltou a Turim sem estar restabelecido.
O teólogo Giovanni Battista Borel e Dom Pacchiotti reorganizaram o trabalho para que o amigo repousasse. Borel relatou por carta que Dom Bosco prometera seguir as orientações, mas o Oratório voltou a exigir sua presença. Tentou até enviá-lo por algum tempo a Sassi, nos arredores de Turim; os meninos, porém, podiam chegar lá a pé e continuavam a procurá-lo. A marquesa de Barolo, informada por carta, ofereceu manter o salário de Dom Bosco se ele se afastasse de Turim e cuidasse da saúde. Lupano destaca que a proposta não expressava desprezo pelo Oratório: ela temia perder um sacerdote que estimava.
“Minha vida é consagrada ao bem da juventude.”
Resposta de Dom Bosco à marquesa de Barolo, conforme as Memórias do Oratório; tradução editorial do italiano.
A resposta marcou uma escolha de vida, mas a crise mostrou o limite do esforço solitário. Em julho de 1846, uma grave enfermidade respiratória o deixou acamado no Refúgio. Os jovens, ao saberem da gravidade, rezaram, jejuaram e perguntavam por ele à porta. Nas Memórias do Oratório, Dom Bosco recorda que aprendizes de pedreiro chegaram a jejuar a pão e água enquanto continuavam o trabalho pesado; é uma recordação pessoal de seu círculo, não uma medição independente do que cada menino fez. Ele se recuperou e partiu para uma longa convalescença nos Becchi; Borel assumiu o Oratório nesse intervalo. Em novembro, ainda debilitado, Dom Bosco voltou a Valdocco acompanhado da mãe, Mamma Margherita.
Na mesma fase, recorda Lupano, Dom Bosco falava de um sonho em que já via o futuro espaço do Oratório, com pátio, casa, igreja e jovens. Alguns ao redor se perguntavam se a exaustão afetara seu juízo. O sonho pertence à experiência religiosa narrada por ele; o comentário dos contemporâneos mostra como sua condição física preocupava até os que o apoiavam.
Para Lupano, a experiência ensina algo além da coragem do fundador: os meninos por quem Dom Bosco se sacrificava também passaram a sustentá-lo. Sua interpretação espiritual é clara, mas o fato histórico é igualmente concreto — o Oratório continuou porque havia uma rede de colaboradores e jovens ao seu redor.
Cinquenta dias, telegramas e um enfermeiro chamado Enria
Em dezembro de 1871, Dom Bosco estava em Varazze quando uma nova doença o impediu de retornar a Turim. O primeiro telegrama enviado a Dom Miguel Rua tentava tranquilizar o Oratório: o “papai” adiava a volta, mencionava piora de um reumatismo e até uma sangria, tratamento então praticado, mas dizia não haver motivo para alarme. As cartas seguintes revelaram um quadro bem mais penoso, com febre, dores, erupções na pele e grande fraqueza. A documentação de Enria, resumida por Lupano, menciona ataques reumáticos, febres miliares, pústulas e eritemas; o autor considera provável uma broncopneumonia por trás da combinação. São termos e hipóteses das fontes, não um diagnóstico retrospectivo fechado.
Mesmo acamado, ele acompanhava o trabalho editorial: pediu a Dom Francesia que revisasse provas de uma nova edição de Il giovane provveduto, livro de formação religiosa para jovens, e pensava em reeditar sua Storia Ecclesiastica. O detalhe recolhido por Lupano mostra até onde iam suas preocupações com a obra, mesmo quando já precisava de cuidados constantes.
As crônicas preservam pequenos gestos. Ao ouvir que devia estar sofrendo muito, Dom Bosco respondia com ironia que o “preguiçoso” deitado era ele e que os verdadeiros sacrificados eram os assistentes. Quando seu estado piorou, recebeu a comunhão como viático. Um dos acompanhantes recordou o esforço que fez para se erguer no leito e o receio de que aquela fosse sua última comunhão.
Dom Giovanni Francesia, diretor do colégio local, o acompanhou de perto. O clérigo Pietro Guidazio passou oito noites de vigília ao lado da cama sem deixar as aulas do dia. Contou depois que Dom Bosco lhe mandava dormir e perguntava se havia descansado; para não preocupá-lo, Guidazio dizia que sim, embora só cochilasse entre uma aula e outra. Depois chegou o coadjutor Pietro Enria, chamado a pedido do próprio Dom Bosco. Por quase um mês, Enria o assistiu durante o dia e até as duas da madrugada; Guidazio assumia das duas às seis. Enria tornou-se uma das principais fontes sobre aqueles dias.
Em outra noite, Enria registrou que Dom Bosco gritou enquanto dormia e, ao acordar, contou ter sonhado que impedia o demônio de entrar no Oratório. O relato trata de um sonho, não de uma ocorrência observada no quarto. Para Lupano, até nessa cena de enfermidade as preocupações do fundador voltavam aos seus jovens.
Suas notícias viajavam até Giuseppe Buzzetti, um dos primeiros jovens do Oratório. Buzzetti pedia cartas diárias e enviava selos para garantir que chegassem. Queria relatos diretos, pois os telegramas, aprovados pelo enfermo, suavizavam a gravidade do quadro. O cuidado com a informação já mostrava a preocupação de Dom Bosco com os que esperavam por ele em Turim.
Cartas daquele período descrevem também o que chegava ao quarto. Benfeitores enviaram garrafas de vinho antigo, algumas da safra de 1825. O regime narrado por Enria incluía caldo concentrado e pequenas quantidades desse vinho, então recomendado para sustentá-lo durante as erupções da pele. É um retrato dos cuidados de 1871, sem valor de orientação médica atual.
Nem o humor desapareceu. Quando uma benfeitora perguntou se um tapete tornaria seu quarto mais confortável em Turim, Dom Bosco respondeu, em tom de brincadeira, que preferia um tapete feito de notas de duas liras: esse, sim, poderia poupá-lo das dores de cabeça com as despesas do Oratório. O episódio, recolhido por Lupano nas crônicas salesianas, revela como as preocupações da obra entravam até nas conversas à beira da cama.
A doença também o levou a pedir um tabelião para ordenar assuntos da Sociedade Salesiana. Em 22 de dezembro de 1871, confirmou um testamento anterior, conforme registra o Boletim Salesiano. Orações se espalharam pelo Oratório e por outras casas. Dom Bonetti escreveu a Rua pedindo para deixar seu colégio e correr até Varazze; Maria Domenica Mazzarello aparece entre as pessoas dispostas a oferecer sacrifícios pela recuperação. Também o bispo de Alba, Eugenio Galletti, mobilizou orações. Segundo uma carta lida por Enria, o jovem Luigi Gamarra e companheiros fizeram uma oferta religiosa pela vida de Dom Bosco; ele se comoveu e pediu que lhes agradecessem.
Dom Bosco melhorou aos poucos. Lupano vê em Varazze uma cena exemplar de cuidado recíproco: o pai espiritual dependia, agora, do tempo, do trabalho e da ternura dos filhos.
O corpo cedia, as viagens continuavam
As fontes reunidas por Lupano descrevem problemas que se acumularam: dificuldades de visão, pernas e pés inchados, dores de cabeça, nevralgias nas gengivas, insônia, digestão difícil, palpitações, febres recorrentes, erupções na pele e crises respiratórias. Dom Eugenio Ceria, citado no texto-base, recorda que o inchaço das pernas chegou a exigir meias elásticas. O declínio não começou de repente nem se resume à doença final.
Um sofrimento que ele teria mantido em silêncio vinha de muito antes. Lupano recupera um relato de Ceria segundo o qual, por volta de 1845, Dom Bosco contraiu uma doença descrita na época como infecção petéquial enquanto visitava frequentemente os enfermos do Cottolengo, em Turim. O nome se refere às pequenas manchas hemorrágicas na pele descritas pela fonte. O Boletim Salesiano de 1941 também registra o episódio, informa que Dom Rua o ouvira do próprio Dom Bosco e diz que ele continuou a frequentar aquelas enfermarias até 1874. Segundo essas fontes, as consequências dolorosas o acompanharam por muitos anos.
A recuperação de Varazze não significara o fim das recaídas. Lupano registra novas crises em 1875 e 1878. A última durou cerca de duas a três semanas e exigiu a assistência contínua de Enria. Em Valdocco, alguns jovens pediam em oração que a doença recaísse sobre eles; outros prometiam mudar de comportamento. No domingo de Páscoa, 21 de abril de 1878, um telegrama anunciou que Dom Bosco estava melhor, almoçava com os demais e que todos podiam se alegrar. Em Sampierdarena, onde se encontrava, vieram benfeitores, autoridades e representantes de localidades vizinhas pedir sua bênção, recordam as crônicas. A repetição da cena mostra como sua saúde já era preocupação de toda a família salesiana.
Em 1880, um médico francês que o examinou em Marselha comparou seu corpo a uma roupa gasta de tanto uso, recorda Ceria. Lupano descreve o enfraquecimento da coluna e o inchaço doloroso das pernas nesse período. Em fevereiro de 1884, uma bronquite grave trouxe extrema fraqueza, dores no peito, sangue na saliva e pulso fraco. Antes de uma viagem à França para buscar recursos, o médico Albertotti foi chamado para tentar dissuadi-lo. Segundo o relato salesiano, avaliou que seria surpreendente Dom Bosco chegar vivo até Nice. O sacerdote manteve a decisão, providenciou outro testamento e partiu em 1º de março.
Em Marselha, em 25 de março de 1884, o médico Paul-Matthieu Combal recomendou repouso, dieta leve e remédios que as crônicas classificam como tônicos, diuréticos e laxativos. No setembro seguinte, Dom Bosco precisou interromper os exercícios espirituais em Valsalice e voltar a Valdocco. A direção salesiana chegou a discutir o que fazer caso ele morresse. A cena revela tanto a gravidade percebida pelos colaboradores quanto a dificuldade de reduzir o ritmo.
Entre 1885 e 1887, viajou ao sul da França, a Barcelona e a Roma. A campanha francesa de 1885 arrecadou recursos, mas exigiu demais do corpo. De volta a Turim, piorou em agosto; durante os exercícios espirituais daquele mês, Lupano registra que chorava repetidamente. Passou a sair pouco do quarto, salvo por breves passeios. Em janeiro de 1886, foi inaugurada uma capela junto de seus aposentos.
Partiu para Barcelona em 12 de março de 1886, com uma etapa francesa antes de seguir viagem em abril. Mesmo cansado, recebeu multidões e falou em público. Lupano registra também o quinto sonho missionário, no qual Dom Bosco imaginou um caminho de Santiago até Pequim: é uma visão narrada por ele, ligada às preocupações com a expansão da obra, e não uma viagem efetivamente realizada. No retorno a Turim, em junho, a saúde voltou a ceder.
Em maio de 1887, após recuperar forças o suficiente para viajar, foi a Roma para a consagração da igreja do Sagrado Coração. Em 13 de maio teve uma audiência especial com o papa; no dia 14 celebrou a chamada “missa das lágrimas”. Nos meses seguintes, em Valdocco, o estado piorou de novo. Lupano menciona sonhos em que a preocupação com o futuro da Congregação se juntava à percepção da própria fragilidade.
Ao comentar esse período, Dom Enrico evita reduzir a história a uma lista de sintomas. O tema central é a mudança de posição de Dom Bosco: aquele que durante décadas recebera e acompanhara jovens precisava aceitar que outros o acompanhassem. Dom Rua assumia responsabilidades crescentes; Enria e o secretário Carlo Viglietti registrariam os detalhes da enfermidade final.
Da saúde frágil à despedida em Valdocco
Em dezembro de 1887, a doença que o acompanhava havia décadas entrou em sua fase final. Dom Enrico Lupano reúne as lembranças dos que permaneceram ao lado de Dom Bosco até a madrugada de 31 de janeiro de 1888. A sequência dos sintomas, das visitas e da vigília está na reportagem A morte de Dom Bosco: a última doença e a despedida.
De onde vem esta história
Dom Enrico Lupano, SDB, “Le malattie nella vita di don Bosco”, texto fornecido para esta edição. Sua seleção de episódios e sua leitura espiritual orientam esta reportagem.
Memórias do Oratório, Memórias Biográficas de Dom Bosco (volumes II, X, XIII e XVII) e Dom Eugenio Ceria, Don Bosco con Dio, citados no material de Lupano. As falas traduzidas nesta matéria são traduções editoriais.
Boletim Salesiano: o testamento de Dom Bosco, sobre Varazze e 1884; e Boletim Salesiano, setembro de 1941, sobre as visitas ao Cottolengo e as lesões observadas após a morte.
Redação e organização jornalística: Porta Piemonte. A fotografia atual dos aposentos pertence ao acervo do site. Episódios preservados como memória ou tradição são identificados no texto.
Os termos médicos históricos são apresentados como registros de época. A matéria não estabelece diagnósticos atuais nem trata a interpretação religiosa como dado clínico.