Uma cidade de passagem que merece uma parada
Ivrea sempre esteve no caminho. Na época romana chamava-se Eporedia; na Idade Média, acolhia peregrinos, mercadores e viajantes; no século XX, tornou-se conhecida no mundo inteiro pela Olivetti.
A posição estratégica, na entrada do Vale de Aosta, explica por que tantas histórias se cruzam aqui. A cidade é a capital histórica do Canavese, território de rios, lagos glaciais, colinas e montanhas ao norte do Piemonte. Seu centro conserva camadas romanas e medievais, enquanto bairros inteiros contam uma experiência moderna de indústria, arquitetura e responsabilidade social.
Ivrea também é uma etapa importante da Via Francigena, o caminho percorrido por peregrinos vindos do centro e do norte da Europa em direção a Roma. Mais do que um itinerário devocional, essa rota foi durante séculos um canal de circulação de ideias, mercadorias, línguas e culturas.
O roteiro apresentado aqui parte da estação ferroviária, atravessa o coração histórico e permite duas continuações: seguir as marcas da Via Francigena até Cascinette d'Ivrea e o Lago Campagna ou regressar ao centro para conhecer museus, arquitetura e sabores locais.
Resumo rápido do roteiro
- Ponto de partida
- Estação de Ivrea, seguindo pelo Corso Costantino Nigra.
- Destaques históricos
- Castelo das Torres Vermelhas, Catedral de Santa Maria, antigo decumano romano e Piazza di Città.
- Patrimônio moderno
- A cidade industrial da Olivetti, reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 2018.
- Caminho de peregrinação
- Trecho urbano da Via Francigena, com possibilidade de continuar até Cascinette d'Ivrea e o Lago Campagna.
- Sabores locais
- Cipolinhas de Ivrea e a tradicional Torta 900.
- Tempo sugerido
- Meio dia para o centro histórico; um dia inteiro com a extensão pelos caminhos e lagos.
Ivrea e a Via Francigena
A Via Francigena não era uma estrada única e imutável. Era uma rede de caminhos que conectava o norte europeu a Roma, adaptando-se à geografia, às pontes, às cidades fortificadas e aos lugares capazes de acolher quem viajava. Ivrea ganhou importância exatamente por estar junto à passagem alpina do Vale de Aosta.
Entre os séculos X e XIII, peregrinos dividiam esses caminhos com comerciantes, soldados, religiosos, representantes políticos e pessoas em busca de estudo ou trabalho. A circulação ajudou a aproximar regiões europeias distantes e transformou as cidades de passagem em espaços de troca cultural.
Hoje, seguir a sinalização francígena em Ivrea é uma forma de enxergar a cidade com outro ritmo. O percurso convida a observar a relação entre ruas antigas, igrejas, pontos de água, praças e saídas para o campo — elementos que, para um caminhante medieval, tinham valor muito concreto.
Da estação ao Castelo das Torres Vermelhas
O passeio começa na estação ferroviária. Siga pelo Corso Costantino Nigra, avenida com cafés e comércio, até a fonte dedicada a Camillo Olivetti. Criada pelo escultor Emilio Greco em 1957, a obra se apoia em uma parede rochosa e usa a queda d'água como parte da composição.
Depois da fonte, atravesse o corso e continue pela Via Riva até a Via Arduino, uma das ruas mais antigas de Ivrea. A subida conduz à parte alta e monumental da cidade, onde se encontra o castelo conhecido pela imagem celebrada por Giosuè Carducci: o castelo das “torres vermelhas”.
A fortaleza foi construída a partir de 1358 por Amadeu VI de Saboia. Suas grandes torres cilíndricas, visíveis de diferentes pontos de Ivrea, lembram a importância estratégica da cidade na ligação entre o Piemonte e os passos alpinos.
A Catedral e o antigo coração de Ivrea
Perto do castelo está a Catedral de Santa Maria Assunta. O bispo Warmondo promoveu sua construção entre o final do século X e o início do XI sobre vestígios de uma área sagrada romana. Apesar das transformações posteriores, a igreja conserva importantes elementos românicos.
A cripta é um dos espaços mais significativos, com estrutura antiga e afrescos datados entre os séculos XI e XIII. Também merecem atenção os campanários, o tibúrio, o exterior da abside e os vestígios do antigo claustro dos cônegos.
A partir da Catedral, a rota desce pelo eixo do antigo decumanus romano até a atual Piazza di Città, sede do município. Na fachada da igreja de Sant'Ulderico é possível identificar a frente de um campanário românico. Segundo a tradição local, o bispo viajante Ulderico teria realizado um milagre neste ponto em 971.
Essa sequência — castelo, catedral, rua romana e praça cívica — concentra em poucos passos a história essencial de Ivrea: poder militar, vida religiosa, herança antiga e organização urbana.
Duas maneiras de continuar o passeio
Depois do centro histórico, o viajante pode escolher entre prolongar a caminhada pela Via Francigena ou continuar uma visita urbana. As duas opções revelam faces diferentes e complementares de Ivrea.
Seguir a Via Francigena
O caminho passa pela igreja de San Lorenzo Martire e continua por trechos mais planos até Cascinette d'Ivrea.
Nos arredores, o Lago Campagna oferece uma pausa na paisagem glacial do Anfiteatro Morênico de Ivrea e pode servir como porta de entrada para o circuito dos Cinco Lagos.
Explorar o centro e o rio
Retorne pela Via Palestro, visite o Museu Cívico Pier Alessandro Garda e siga em direção aos jardins e às margens do Dora Baltea.
A Torre de Santo Stefano, a arquitetura moderna de La Serra e as vistas do rio completam o circuito urbano antes do retorno ao Corso Nigra.
Olivetti e a cidade industrial do século XX
A história moderna de Ivrea é inseparável da Olivetti. Camillo Olivetti fundou a empresa em 1908; nas décadas seguintes, especialmente sob a liderança de Adriano Olivetti, a cidade tornou-se laboratório de uma visão industrial que procurava integrar trabalho, arquitetura, cultura e serviços sociais.
Fábricas, escritórios, moradias e equipamentos comunitários foram projetados por importantes arquitetos e urbanistas. Esse conjunto não representa apenas uma coleção de edifícios modernos. Ele materializa uma proposta de cidade em que a indústria deveria participar da qualidade de vida e do desenvolvimento humano.
Em 2018, o sítio Ivrea, cidade industrial do século XX entrou na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. O reconhecimento acrescentou uma camada internacional à identidade local e convida o visitante a observar Ivrea também para além do núcleo medieval.
No circuito central, o antigo Centro Congressi La Serra chama atenção por sua forma que recorda uma máquina de escrever. Projetado por Iginio Cappai e Pietro Mainardis depois da morte de Adriano Olivetti, o edifício é uma presença singular junto ao rio e aos jardins.
Rio, cultura e sabores de Ivrea
Para continuar pelo centro, a Via Palestro conduz ao Museu Cívico Pier Alessandro Garda, cujo acervo ajuda a compreender a arqueologia, a arte e as coleções formadas ao longo da história local.
Seguindo em direção aos jardins, surge a torre românica de Santo Stefano, um dos símbolos da cidade. Nas proximidades, vale desacelerar junto ao Dora Baltea: as margens oferecem vistas do centro, das pontes e das fachadas que se voltam para a água.
A pausa gastronômica também faz parte do roteiro. As cipolinhas de Ivrea, pequenas cebolas tradicionalmente servidas como antepasto, aparecem em mesas e mercados locais. Para o doce, a Torta 900 — criação associada à histórica Pasticceria Balla — tornou-se uma das especialidades mais conhecidas da cidade.
Como organizar a visita
Comece cedo
Um início pela manhã deixa tempo para o centro histórico, uma pausa gastronômica e a escolha entre os lagos ou o patrimônio Olivetti.
Use calçado confortável
Há ruas inclinadas, piso histórico e, na extensão natural, trilhas cujo estado pode mudar conforme o clima.
Confirme as aberturas
Igrejas, museus e interiores históricos podem ter horários sazonais ou fechar durante celebrações e eventos.
Escolha um foco
Em meio dia, concentre-se no centro. Para combinar cidade, Via Francigena e lagos, reserve um dia inteiro.
O roteiro urbano pode ser feito de maneira independente a partir da estação, mas uma visita acompanhada ajuda a conectar camadas que nem sempre são evidentes: a Eporedia romana, o poder dos Saboia, a rota medieval, o projeto Olivetti e a paisagem morênica.
Antes de viajar, consulte informações atualizadas sobre transportes, acesso aos monumentos, funcionamento do museu e condições dos caminhos. No Carnaval ou em grandes eventos, a circulação e o acesso ao centro podem mudar de forma significativa.
Fontes para aprofundar
Este artigo foi elaborado a partir do roteiro publicado pelo projeto Piemonte Italia e reorganizado em português para o contexto editorial do Porta Piemonte. Informações patrimoniais podem ser aprofundadas nas páginas institucionais abaixo.
Por que Ivrea merece entrar no roteiro
Ivrea reúne muitas cidades em uma só. A antiga Eporedia aparece na estrutura das ruas; a Idade Média se impõe no castelo e na catedral; a Via Francigena devolve sentido à caminhada; a Olivetti conta um projeto moderno de indústria e sociedade; o Dora Baltea e os lagos lembram que a natureza nunca está distante.
Essa variedade não exige uma visita apressada. Pelo contrário: Ivrea recompensa quem caminha, observa e aceita escolher. É possível dedicar algumas horas ao centro ou transformar a cidade em base para descobrir o Canavese com mais profundidade.
Quer incluir Ivrea e o Canavese na sua viagem?
O Porta Piemonte cria roteiros em português combinando história, patrimônio Olivetti, Via Francigena, natureza e sabores locais conforme o ritmo de cada viajante.