Há lugares de Turim cuja história não se revela à primeira vista. O trânsito segue ao redor de um monumento. Uma fachada discreta anuncia atividades culturais. Quem passa pode reconhecer uma escultura religiosa ou um antigo edifício, sem perceber que ali se encontram capítulos difíceis da memória da cidade.
O Rondò della Forca e San Pietro in Vincoli pertencem a essa geografia. Um esteve associado às execuções públicas; o outro, à história dos sepultamentos e também a uma breve passagem dos jovens do Oratório de Dom Bosco. Hoje, cada um permite um tipo diferente de aproximação: no primeiro, encontramos sobretudo uma lembrança monumental; no segundo, um conjunto arquitetônico que recebeu novos usos.
Depois de conhecer os cárceres de Turim, este segundo capítulo acompanha o que acontecia além de suas portas. Ao lado dos condenados aparecem sacerdotes e integrantes de uma confraria. Entre eles, Dom Giuseppe Cafasso ocupa um lugar central. A presença de Dom Bosco também faz parte dessa história, com diferenças que os documentos ajudam a compreender.
O Rondò della Forca no mapa de hoje
O nome correto é Rondò della Forca, também conhecido pela forma piemontesa Rondò d’la Forca. A referência corresponde à área de encontro dos corsi Valdocco, Principe Eugenio e Regina Margherita com a via Gian Francesco Cigna. A configuração das ruas mudou; o nome conserva a lembrança do uso que marcou aquele espaço.
A abertura dessa área esteve ligada à transformação de Turim depois da demolição de suas fortificações, no período napoleônico. Segundo MuseoTorino, as execuções ocorreram ali até 1852. A forca era montada para cada ocasião. O condenado chegava da prisão em uma carroça, acompanhado por assistência religiosa, membros da Misericordia e escolta armada. Fonte: MuseoTorino — Rondò della Forca.
Por isso, quem visita o lugar não encontra uma forca preservada. Também não deve tomar o trânsito atual como reprodução do caminho percorrido pelos condenados. O que podemos reconhecer é a área histórica e a maneira como a cidade escolheu assinalar sua memória.
Um monumento voltado para o homem condenado
O marco mais visível é o monumento a Giuseppe Cafasso, obra do escultor Virgilio Audagna, instalado no início da década de 1960. O grupo de bronze reúne o sacerdote e um condenado, com a cruz presente na composição. O gesto de assistência organiza a cena. Fonte: MuseoTorino — Monumento a Giuseppe Cafasso.
Na inscrição do pedestal, uma frase apresenta a intenção da homenagem:
“A justiça humana precisa ser acompanhada pela caridade de Cristo.”
Trecho da inscrição do monumento, em tradução editorial. A frase está registrada na fotografia da inscrição reproduzida nesta edição, pertencente ao acervo próprio do Porta Piemonte; não se trata de uma fala pessoal de Cafasso. Documento visual: inscrição do monumento.
A escultura é posterior aos acontecimentos que recorda. Essa distância temporal importa: estamos diante de uma homenagem construída pela cidade, e não de um objeto remanescente das execuções. Ela oferece um ponto de partida para perguntar quem eram os homens que chegavam ali e quem permanecia ao seu lado.
Dom Cafasso: acompanhar até o último momento
Cafasso foi uma referência decisiva na formação sacerdotal de Dom Bosco. Sua atuação entre os presos envolvia visitas, instrução religiosa, confissão e conversas pessoais. Na síntese biográfica apresentada por Bento XVI em 2010, aparecem mais de vinte anos de trabalho nos cárceres e o acompanhamento de 57 condenados ao patíbulo. Esse número se refere ao conjunto de sua atuação, sem permitir atribuir todas essas execuções ao Rondò de Turim. Fonte: Bento XVI — audiência geral de 30 de junho de 2010.
Em um texto publicado em 1860, depois da morte de Cafasso, o próprio Dom Bosco recordou as jornadas que ele dedicava aos detentos. Trata-se de uma homenagem fúnebre e religiosa, escrita por alguém que o conheceu: sua linguagem expressa admiração, gratidão e a compreensão cristã da salvação. É nesse contexto que devemos ler os episódios narrados. Fonte histórica: Giovanni Bosco — Biografia del sacerdote Giuseppe Caffasso, primeiro discurso fúnebre.
Ao aproximar essas fontes, encontramos a dimensão pessoal dessa assistência. A pessoa condenada podia receber escuta e amparo quando quase tudo em sua vida estava sendo decidido por outros. A lembrança de Cafasso permanece ligada a essa disponibilidade para acompanhar alguém até o fim.
A Misericordia e o cuidado que continuava depois da morte
A assistência aos condenados também era uma tarefa coletiva. A Arciconfraternita della Misericordia, fundada em Turim em 1578, desenvolveu uma atuação que alcançava necessidades materiais, jurídicas e espirituais dos presos. Sua igreja, ligada a San Giovanni Battista Decollato, tornou-se conhecida como Chiesa della Misericordia. Fonte institucional: Arciconfraternita della Misericordia.
Entre as atribuições da confraria estavam o conforto aos condenados, os funerais e as orações pelos mortos. Assim, sua presença ajudava a ligar a prisão, o acompanhamento final e o sepultamento. Essa continuidade permite compreender por que uma igreja do centro também integra a história dos lugares de execução e dos cemitérios. Fonte: Città e Cattedrali — Chiesa della Misericordia.
A sede indicada pela própria instituição fica na via Giuseppe Barbaroux, 41. Sua visita pode complementar este percurso, com consulta prévia às condições de acesso. A história mais ampla das igrejas e confrarias de assistência está no primeiro artigo desta série.
E Dom Bosco? O que as fontes permitem afirmar
As Memórias Biográficas, compiladas por Giovanni Battista Lemoyne, descrevem Dom Bosco junto a condenados nas prisões do Senato e no confortatorio, espaço preparado para a assistência religiosa nas últimas horas. Ele passava parte da noite com os presos; Cafasso, e em algumas ocasiões Dom Borel, assumiam depois esse acompanhamento.
O mesmo volume narra um episódio de 1846 em que Dom Bosco acompanhou um jovem condenado até o local da execução. Há um detalhe fundamental: a cena se passa em Alessandria. Segundo o relato, o jovem havia sido assistido por ele em Turim e pediu sua presença. Durante o percurso e a execução, Dom Bosco passou mal e precisou da ajuda de Cafasso.
É um relato biográfico publicado décadas depois dos fatos, não um registro contemporâneo da execução. Ele testemunha como a tradição salesiana recordou essa experiência, mas não autoriza situá-la no Rondò della Forca. A atuação junto aos presos está documentada nessa literatura; a imagem de Dom Bosco acompanhando habitualmente condenados à forca de Turim extrapola o que esse episódio permite afirmar. Fonte: Lemoyne — Memórias Biográficas, volume II, capítulo XXXIX, páginas originais 364–371.
San Pietro in Vincoli: um cemitério fora das igrejas
Em Borgo Dora, o antigo cemitério de San Pietro in Vincoli permite outro encontro com essa história. Seu nome remete a São Pedro “nas correntes”, ou “acorrentado”. Aqui, porém, estamos diante de um espaço funerário, com arquitetura própria e uma trajetória que não se resume aos sepultamentos de condenados.
Sua origem está na reforma promovida por Vittorio Amedeo III em 1777, que procurava afastar os sepultamentos das igrejas e da área habitada. O projeto, desenvolvido por Francesco Valeriano Dellala di Beinasco em 1778, organizou um recinto retangular, pórticos e uma capela. San Pietro in Vincoli integra, assim, a história das mudanças sanitárias e urbanas de Turim. Fonte: MuseoTorino — Cimitero di San Pietro in Vincoli.
O espaço também refletia diferenças sociais. Os pórticos abrigavam sepulturas particulares, enquanto a área central recebia sepultamentos comuns. A arquitetura distribuía de maneira desigual o espaço e as possibilidades de homenagem. Fonte: Município de Turim — ficha técnica do conjunto.
Ao observar o pátio de hoje, vale imaginar essa organização, preservando a distância entre o que os documentos descrevem e aquilo que permanece visível. O edifício passou por danos, remoções e restaurações. Sua aparência atual reúne diferentes momentos dessa trajetória.
Onde eram sepultados os condenados
A história de San Pietro in Vincoli inclui áreas anexas destinadas a sepultamentos sujeitos a regras e distinções religiosas da época, entre eles os de executados. As descrições históricas mencionam espaços à margem do recinto principal. Isso impede tratar todo o pátio hoje preservado como se fosse um único “cemitério dos enforcados”. Fonte: MuseoTorino — história e organização do cemitério.
O lugar permite reconhecer como a exclusão podia continuar depois da morte. A posição de uma sepultura, a existência de uma lápide e a possibilidade de conservar um nome faziam parte das formas pelas quais uma sociedade lembrava seus mortos. Esse é um aspecto importante do percurso: a memória pública não chega até nós de maneira uniforme.
Não há, nesta pesquisa, documentação suficiente para apontar a sepultura individual de cada pessoa executada no Rondò ou reconstruir um caminho único até o cemitério. A proximidade entre os lugares ajuda a relacionar suas histórias, sem eliminar as lacunas dos registros.
Quando os jovens de Dom Bosco chegaram ao cemitério
San Pietro in Vincoli também aparece na procura de um lugar para reunir o Oratório. A edição anotada das Memórias do Oratório situa uma passagem dos jovens pelo conjunto no domingo, 25 de maio de 1845. Dom Bosco recorda o entusiasmo com a igreja, o pátio e os pórticos: aquele espaço parecia oferecer abrigo às atividades do grupo.
O episódio costuma ser contado como mais uma expulsão, seguida por acontecimentos extraordinários. As notas da edição exigem uma leitura mais cuidadosa: a documentação citada pelos editores não confirma uma carta de proibição dirigida por Giuseppe Tesio a Dom Bosco. A ordem encontrada dizia respeito ao uso da capela por outro grupo, os catequistas de Santa Pelagia.
Essa diferença não apaga a presença dos jovens. Ela mostra por que precisamos distinguir a memória autobiográfica, registrada posteriormente, dos documentos administrativos. Podemos acompanhar a busca de Dom Bosco por um espaço de acolhida sem apresentar todos os detalhes da narrativa tradicional como fatos comprovados. Fonte: Giovanni Bosco — Memórias do Oratório, edição anotada, notas 212–214.
Um lugar transformado em várias etapas
O encerramento da função funerária de San Pietro in Vincoli não se resume a uma única data. Houve redução dos sepultamentos comuns, permanência de usos particulares e danos que afetaram o conjunto. A ficha técnica municipal registra o fim dos sepultamentos ordinários em 1837 e danos causados pela explosão da vizinha fábrica de pólvora em 1852. Também registra a remoção dos restos mortais remanescentes em 1970 e a restauração de 1988, precedida por experiências de uso teatral. Fonte: Município de Turim — ficha técnica do conjunto.
Essas etapas ajudam a compreender as diferentes datas encontradas em descrições do cemitério. Suspender uma modalidade de sepultamento, encerrar os últimos usos e restaurar o edifício são acontecimentos distintos. Ao caminhar ali, encontramos o resultado desse processo prolongado.
Uma parte de sua memória artística também mudou de endereço. A escultura La Religione, de Innocenzo Spinazzi, datada de 1794, integrou o monumento funerário de uma princesa da família Belosel’skij. Transferida para San Pietro in Vincoli em 1862, a figura velada pertence hoje ao acervo da GAM de Turim. Portanto, não fazia parte do cenário encontrado pelos jovens do Oratório em 1845. A presença no acervo não garante que esteja em exposição no momento da visita. Fonte: GAM — ficha de La Religione no Google Arts & Culture.
O que existe hoje, e como se aproximar desses lugares
O Município de Turim apresenta o antigo cemitério como espaço cultural, com atividades de artes cênicas, residências, encontros e formação. Na informação institucional consultada para esta edição, a gestão é compartilhada por A.M.A. Factory e LabPerm. O endereço de visita divulgado é via San Pietro in Vincoli, 28. Fonte atual: Município de Turim — Ex Cimitero San Pietro in Vincoli.
A possibilidade de entrar deve ser conferida com os responsáveis e com a programação. Não se deve pressupor abertura diária, visita livre ao interior ou funcionamento como museu convencional. A fachada pode ser reconhecida a partir da rua; conhecer os pórticos e a capela depende das condições de acesso.
No Rondò, o ponto de observação é o monumento a Cafasso, inserido na cidade atual. Convém aproximar-se pelos percursos de pedestres e observar a composição e a inscrição com calma. Não há uma estrutura original de execução a ser visitada.
| Lugar | O que reconhecer | Referência para o percurso |
|---|---|---|
| Rondò della Forca | Área histórica das execuções e monumento a Cafasso; a forca não está preservada. | Encontro dos corsi Valdocco, Principe Eugenio e Regina Margherita com a via Gian Francesco Cigna. |
| Antigo cemitério de San Pietro in Vincoli | Fachada, pátio, pórticos e capela do conjunto, hoje utilizado para cultura. | Via San Pietro in Vincoli, 28; consultar programação e acesso ao interior. |
| Chiesa della Misericordia | Igreja ligada à confraria que assistia os condenados e cuidava de seus funerais. | Via Giuseppe Barbaroux, 41, conforme a instituição; consultar condições de visita. |
As referências acima permitem organizar um passeio de memória pela cidade atual. Não representam a reconstituição de um cortejo histórico específico. Para o primeiro e o terceiro lugares, as fontes são, respectivamente, MuseoTorino e a Arciconfraternita, citadas nas seções anteriores.
A cidade que conserva, a cidade que transforma
O monumento a Cafasso e o antigo cemitério oferecem maneiras diferentes de lembrar. Um concentra a atenção em um gesto de assistência. O outro conserva uma arquitetura que atravessou a perda de sua função original e recebeu novas atividades.
A visita ganha sentido quando reconhecemos essas diferenças. Podemos observar o bronze, os pórticos, a capela e a fachada, enquanto procuramos compreender a vida das pessoas que os documentos nem sempre permitem identificar. Entre elas estavam os condenados, os integrantes das confrarias, os sacerdotes e também os jovens que chegaram com Dom Bosco em busca de um lugar para se reunir.
É por essa presença dos vivos que a série continuará. No próximo artigo, a história de Luigi Pesciallo conduzirá a uma questão que atravessa a experiência educativa salesiana: o que acontece quando a porta da prisão se abre e a pessoa precisa encontrar um caminho para recomeçar.
Fontes e créditos
Pesquisa e adaptação editorial do Porta Piemonte, apoiadas em fontes diversas. Os testemunhos históricos, as edições anotadas e as informações institucionais são identificados abaixo.
Fontes históricas e edições anotadas
- Referência 1
Giovanni Bosco. Biografia del sacerdote Giuseppe Caffasso, 1860. Primeiro discurso fúnebre, especialmente as passagens sobre a assistência nas prisões. Testemunho religioso de uma pessoa próxima a Cafasso.
- Referência 2
Giovanni Battista Lemoyne. Memorie Biografiche di Don Giovanni Bosco, volume II, 1901, capítulo XXXIX, páginas originais 364–371. Fonte do relato sobre o confortatorio e o episódio em Alessandria. A referência utiliza a paginação impressa da obra.
- Referência 3
Giovanni Bosco. Memorie dell’Oratorio, edição anotada disponibilizada no arquivo salesiano, notas 212–214. Referência para 25 de maio de 1845 e para a distinção entre narrativa autobiográfica e documentação sobre o uso da capela.
Fontes institucionais, patrimoniais e sobre o uso atual
- Referência 4
MuseoTorino. Rondò della Forca: localização histórica, montagem da forca, acompanhamento e uso até 1852.
- Referência 5
MuseoTorino. Monumento a Giuseppe Cafasso: autoria de Virgilio Audagna e descrição da obra.
- Referência 6
Bento XVI. Audiência geral de 30 de junho de 2010: síntese biográfica de Giuseppe Cafasso e assistência aos condenados.
- Referência 7
Arciconfraternita della Misericordia: história institucional e endereço da sede.
- Referência 8
Città e Cattedrali. Chiesa della Misericordia: função da confraria na assistência final, nos funerais e nos sufrágios.
- Referência 9
MuseoTorino. Cimitero di San Pietro in Vincoli: origem, projeto, organização e transformações do conjunto.
- Referência 10
Município de Turim. Scheda del bene — Ex Cimitero San Pietro in Vincoli, documento técnico patrimonial: organização dos sepultamentos, etapas de desativação, danos e recuperação.
- Referência 11
GAM — Galleria Civica d’Arte Moderna e Contemporanea di Torino. La Religione, de Innocenzo Spinazzi, 1794, ficha de acervo no Google Arts & Culture: proveniência e transferência em 1862.
- Referência 12
Município de Turim. Ex Cimitero San Pietro in Vincoli: endereço divulgado ao visitante, uso cultural e entidades responsáveis.
Imagens e evidência visual
- Referência 13
Porta Piemonte. Fotografias do monumento a Giuseppe Cafasso e da inscrição no pedestal, no Rondò della Forca. Acervo próprio fornecido para esta edição.
- Referência 14
BabyMaz, Ex-cimitero San Pietro in Vincoli — Estate 2023, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
- Referência 15
Pmk58, S. Pietro in Vincoli, 2021, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
- Referência 16
Ilustração editorial gerada e revisada para o Porta Piemonte com a ferramenta integrada de geração de imagens, em 29 de outubro de 2026. Interpretação de Dom Bosco acompanhando um adolescente, sem retrato autenticado, percurso identificado ou caso documentado reconstituído.
O prompt da revisão e a referência fornecida para o rosto estão registrados na documentação do projeto.
As duas fotografias de San Pietro in Vincoli são utilizadas sob CC BY-SA 4.0, com autoria, original e licença identificados em cada legenda. As fotografias do Rondò della Forca pertencem ao acervo próprio do Porta Piemonte. A licença das imagens de San Pietro in Vincoli não se estende automaticamente às demais imagens ou ao texto do artigo.