Valdocco era o coração, não o mapa inteiro
Quando se fala no Oratório de Dom Bosco, a memória corre quase sempre para Valdocco. A associação está certa — mas deixa de fora uma cidade inteira.
Na Turim dos anos 1840, muitos jovens chegavam das áreas rurais ou viviam em bairros populares que cresciam para além do centro antigo. Eram aprendizes, pequenos operários, trabalhadores por jornada e meninos com pouca ou nenhuma proteção. Para vários deles, atravessar a cidade a pé até a Casa Pinardi tornava difícil participar regularmente do Oratório.
Foi nesse contexto que duas experiências ganharam especial importância: o Oratório de São Luís, aberto por Dom Bosco na periferia sul, e o Oratório do Anjo da Guarda, criado antes por Dom Giovanni Cocchi em Vanchiglia e mais tarde colocado sob a responsabilidade de Dom Bosco.
São Luís foi fundado diretamente por Dom Bosco. O Anjo da Guarda nasceu da iniciativa de Dom Cocchi e só entrou depois na rede coordenada por Dom Bosco. Chamar os dois de “outros oratórios de Dom Bosco” descreve uma fase de responsabilidade pastoral, não uma autoria idêntica.
A cidade crescia; a presença pastoral precisava crescer junto
A chegada de massas populares e juvenis mudou a geografia social de Turim. Os problemas não eram apenas econômicos. Havia distância das paróquias, pouca escolarização, trabalho instável e escassez de espaços seguros de convivência. As experiências de Dom Cocchi e de Dom Bosco mostravam que catequese, recreação, instrução e acompanhamento podiam formar uma resposta única.
Os receios iniciais de parte do clero paroquial foram cedendo à evidência: um só pátio não bastava. Centenas de jovens se reuniam no espaço limitado de Valdocco, enquanto bairros em expansão pediam iniciativas próprias. Descongestionar a Casa Pinardi significava também tornar o cuidado mais próximo e constante.
São Luís
O caminho leva ao Viale del Re, atual corso Vittorio Emanuele II, entre Porta Nuova e San Salvario.
Fundação: 8 de dezembro de 1847Anjo da Guarda
O percurso começa no Moschino e se fixa em Vanchiglia, na área entre as atuais via Santa Giulia e via Tarino.
Fundação: 1840São Luís: um segundo pátio para os jovens de Porta Nuova
Em um domingo de agosto de 1847, Dom Bosco observou o número excessivo de jovens reunidos em Valdocco e apresentou ao teólogo Giovanni Battista Borel a ideia de abrir outro oratório. Muitos meninos vinham de piazza Castello, piazza San Carlo, Borgo Nuovo e San Salvario; percorriam uma distância considerável para chegar à Casa Pinardi.
Consultado, o arcebispo aprovou a proposta e indicou a periferia sul. O pároco de Santa Maria degli Angeli também a acolheu. Dom Bosco e Borel então percorreram a região de Porta Nuova, seguindo pelo chamado Viale del Re — hoje corso Vittorio Emanuele II — na direção do Pó.
Era uma área ainda aberta, fora da cidade compacta, onde grupos de meninos procuravam espaço para brincar. Ali encontraram uma casa pequena, com uma cobertura muito simples e um pátio, pertencente à senhora Vaglienti. O aluguel anual seria de 450 liras.
Dom Bosco recordou que foi preciso enfrentar uma “batalha bastante acirrada com os moradores”.
Memórias do Oratório, p. 202 — trecho curto em tradução editorial
A casa estava ocupada por lavadeiras, que resistiam à mudança. Segundo o relato de Dom Bosco, a negociação terminou sem hostilidade depois de conversa e indenização. O episódio tem algo de cotidiano e revelador: antes de haver igrejas e instituições, era preciso encontrar um teto, combinar um aluguel e tornar possível um pátio.
O Oratório foi inaugurado em 8 de dezembro de 1847 e dedicado a São Luís Gonzaga — San Luigi, em italiano. A direção coube ao teólogo Giacinto Carpano, que adotou o mesmo regulamento usado em Valdocco. Os primos Roberto e Leonardo Murialdo estiveram entre os colaboradores.
Giacinto Carpano
Primeiro diretor; levou ao novo pátio o regulamento de Valdocco.
Dom Pietro Ponte
Jovem capelão da marquesa de Barolo, assumiu depois de Carpano.
Paolo Francesco Rossi
Sacerdote estimado pelos jovens, morreu aos 28 anos.
Gaetano Bellingeri
Advogado leigo, sustentou a direção com todo o tempo livre que possuía.
Leonardo Murialdo transforma pobreza em escola, música e presença
Com a morte do teólogo Rossi, nenhum sacerdote conseguia assumir São Luís em tempo integral. O problema envolvia disponibilidade, mas também dinheiro: dirigir o Oratório frequentemente significava pagar despesas do próprio bolso. Depois de tentativas e reflexão, Dom Bosco convidou o jovem teólogo Leonardo Murialdo, que já catequizava em São Luís, no Anjo da Guarda e em Valdocco.
A escolha se mostrou fecunda. Murialdo assumiu a direção em 1857 e levou consigo algo aprendido ao lado de Dom Bosco: a convicção de que o vínculo educativo se constrói no pátio, na catequese e na atenção concreta às necessidades de cada jovem.
Dom Bosco enviou como assistentes e catequistas alguns dos clérigos mais próximos da primeira geração salesiana: Michele Rua, Celestino Durando, Giuseppe Lazzero, Francesco Cerruti, Francesco Dalmazzo, Giovanni Cagliero e Angelo Savio, entre outros. Leigos qualificados também participaram, como Bellingeri, o conde Francesco Viancino, o marquês Scarampi di Pruney, o conde Pensa, o advogado Ernesto Murialdo, o professor Mosca e o engenheiro Giovanni Battista Ferrante.
Como em Valdocco, tudo era muito pobre: a capela era modesta, e os ambientes anexos, estreitos e frágeis. Murialdo respondeu à precariedade com recursos próprios e uma intensa organização educativa.
Duas classes
Um pequeno edifício, dividido por uma parede removível nos dias de teatro, acolheu classes elementares para cerca de cem meninos recusados por outras escolas.
Canto e música
Uma escola noturna experimentou o método do meloplasto e depois passou ao maestro Elzeario Scala; uma banda durou pouco por razões disciplinares.
Ajuda material
Murialdo pagava roupas, prêmios de festas e rifas, além do tabernáculo e dos degraus de mármore do altar.
Rede de apoio
Sacerdotes, clérigos e leigos dividiam catequese, jogos, escola, procura de trabalho e acompanhamento das famílias.
O bairro também vivia uma nova pluralidade religiosa. Depois do Estatuto Albertino de 1848, os valdenses receberam direitos civis e construíram nas proximidades um templo, um hospital e obras sociais. A fonte católica do período descreve essa presença em linguagem de confronto. Lida hoje, ela revela uma cidade na qual diferentes comunidades disputavam presença pública, educação e assistência.
Murialdo dirigiu São Luís até 1865, quando partiu para um ano de formação em Saint-Sulpice, em Paris. O abade Teodoro Scolari assumiu por longo período e, mais tarde, a direção passou exclusivamente aos Salesianos.
No local do primeiro pátio, no corso Vittorio Emanuele II, 13, Dom Bosco construiu a igreja de San Giovanni Evangelista entre 1878 e 1882, com projeto de Edoardo Arborio Mella. O Oratório de São Luís foi transferido para via Ormea, 4, onde a presença salesiana continua ativa.
Anjo da Guarda: o primeiro oratório para jovens trabalhadores de Turim
Antes de Valdocco e antes de São Luís, Dom Giovanni Cocchi já havia aberto uma frente semelhante. Em 1840, quando era vice-pároco da Santissima Annunziata, criou um oratório para meninos que vagavam pelas ruas e praças da paróquia.
A primeira experiência ficava no Moschino, área da margem esquerda do Pó próxima à atual piazza Vittorio Veneto. Uma descrição histórica reproduzida por Giraudo e Biancardi retrata o lugar com termos violentos e estigmatizantes, chamando as moradias de covis e seus habitantes de criminosos. Mais do que repetir esse juízo, é importante perceber o que ele revela: a distância social com que a Turim respeitável olhava para aquela população.
Até a rua principal era conhecida em piemontês como Contrà d'le pules, a “rua das pulgas”. Em 1841, Cocchi levou o Oratório para o centro de Vanchiglia, sob a cobertura de um jardim da Casa Bronzino. No pátio rústico, construiu uma capela pobre e um pequeno teatro.
A obra recebeu o nome de Anjo da Guarda, ligado a uma associação de jovens sacerdotes turineses preocupados com a juventude abandonada. O objetivo inicial era ocupar os meninos antes e depois das aulas de catecismo, mas o público logo se ampliou para aprendizes, operários e trabalhadores diaristas.
Entre jogos e atividades, Dom Cocchi introduziu a ginástica — algo incomum, sobretudo para as classes populares. Seu oratório unia formação religiosa e instrumentos educativos que falavam diretamente ao corpo, à convivência e ao cotidiano dos jovens.
1849: patriotismo, fechamento e uma nova responsabilidade para Dom Bosco
O fervor patriótico da Primeira Guerra de Independência entrou no pátio de Vanchiglia. Um grupo de jovens decidiu se apresentar como voluntário ao exército. Entusiasmado pela ideia nacional e sem querer abandoná-los, Dom Cocchi os acompanhou na marcha para Novara, em março de 1849.
Os jovens não foram aceitos e o grupo voltou discretamente. O episódio provocou escândalo no ambiente eclesiástico, e o arcebispo Luigi Fransoni determinou o fechamento temporário do Oratório.
Giuseppe Cafasso, Borel e Dom Bosco pressionaram pela reabertura, preocupados com o destino dos meninos. Em outubro, o arcebispo autorizou que a obra recomeçasse, mas agora sob a responsabilidade de Dom Bosco. Em parceria com Borel, ele alugou novamente os espaços e confiou a direção primeiro ao teólogo Carpano e depois ao teólogo Giovanni Vola. Ambos deixaram a função diante das dificuldades.
Em outubro de 1851, o teólogo Roberto Murialdo assumiu o compromisso, ajudado pelo primo Leonardo. A historiografia tradicional apresenta Leonardo como a grande alma do lugar até 1856; pesquisas posteriores mostram que Roberto provavelmente continuou diretor por mais tempo e que Michele Rua também teve papel efetivo na condução cotidiana.
O Oratório foi realmente “transferido” para Santa Giulia?
O guia de Giraudo e Biancardi segue a tradição segundo a qual, em 1871, Dom Bosco entregou o Anjo da Guarda ao pároco de Santa Giulia, que o levou para instalações melhores. O historiador Giovenale Dotta acrescenta uma cautela: a documentação não permite fixar com total segurança a data do encerramento e indica que o oratório de Santa Giulia pode ter sido uma nova instituição, não uma simples transferência. O processo parece ter ocorrido gradualmente entre 1868 e 1871.
Dos Artigianelli aos Giuseppini: outra semente nascida em Vanchiglia
Quando deixou a direção do Anjo da Guarda em 1849, Dom Cocchi não abandonou o trabalho social. Passou a organizar uma obra para jovens muito pobres, sem casa nem meios de subsistência. Alguns já haviam dormido temporariamente no teatrinho do Oratório; outros foram alojados em cômodos da Casa Moncalvo, em Vanchiglia.
Eram aprendizes e pequenos operários, por isso ficaram conhecidos como Artigianelli. Para sustentar a iniciativa, Cocchi fundou a Associazione di carità a pro dei giovani poveri, orfani ed abbandonati, formada por leigos e eclesiásticos. O estatuto, datado de 11 de março de 1850, foi assinado na paróquia da Santissima Annunziata por Dom Cocchi e pelos teólogos Giacinto Tasca, Roberto Murialdo e Antonio Bosio.
O instituto mudou de sede várias vezes até se instalar, em 1863, em um edifício próprio no corso Palestro. Giacinto Tasca e Pietro Berizzi consolidaram oficinas internas que se tornaram escolas profissionais. Em 1866, Leonardo Murialdo assumiu uma direção apresentada como provisória — e permaneceu nela por 34 anos.
Dom Cocchi, por sua vez, já se dedicava no fim de 1852 à criação de uma colônia agrícola nas proximidades de Cavoretto, outra tentativa de oferecer formação e futuro aos jovens.
Dessa experiência nasceu a Congregação de São José, conhecida como Giuseppini del Murialdo. Assim, a história dos dois oratórios não pertence apenas à memória salesiana: ela também ajuda a compreender a vocação social e educativa de Leonardo Murialdo.
Uma cronologia de pátios, pessoas e mudanças
O Anjo da Guarda começa
Dom Giovanni Cocchi abre no Moschino o primeiro oratório turinês voltado aos jovens pobres e trabalhadores.
A obra chega a Vanchiglia
O Oratório se instala na Casa Bronzino, com capela simples, teatrinho, catequese, jogos e ginástica.
Nasce São Luís
Dom Bosco inaugura o novo Oratório de Porta Nuova em 8 de dezembro.
Crise e reabertura
Depois da marcha para Novara, o Anjo da Guarda fecha temporariamente e reabre sob a responsabilidade de Dom Bosco.
Roberto e Leonardo Murialdo
Os primos passam a sustentar de modo decisivo a obra de Vanchiglia.
Leonardo dirige São Luís
Escola, música, ajuda material e uma ampla rede de colaboradores dão nova força ao pátio.
Murialdo parte para Paris
Teodoro Scolari assume São Luís; a direção depois passará aos Salesianos.
Uma passagem ainda debatida
O Anjo da Guarda encerra sua atividade enquanto se organiza o novo oratório paroquial de Santa Giulia.
San Giovanni Evangelista
Dom Bosco ergue a igreja no terreno do primeiro São Luís; o Oratório já segue sua história em via Ormea.
Antes dos novos pátios, um Oratório em movimento
O texto-base abre em seguida outro capítulo: as igrejas da fase itinerante. É uma história anterior e complementar, que não deve ser confundida com a fundação dos dois oratórios.
Do verão de 1845 à primavera de 1846, Dom Bosco ainda não possuía um ambiente amplo para as celebrações. Pela manhã, levava os jovens a igrejas de Turim e arredores para a missa e as confissões; à tarde, o grupo se reunia nos espaços provisórios do Ospedaletto, dos Molassi, da Casa Moretta ou do prado Filippi. Em dias de bom tempo, a necessidade virava passeio de um dia inteiro, com caminhada e lanche.
A tradição salesiana recorda especialmente a Consolata, a Basílica de Superga, o Monte dei Cappuccini e a Madonna del Pilone. Essa fase mostra que, antes de ser endereço, o Oratório já era uma comunidade capaz de atravessar a cidade.
Como ler esses vestígios na Turim de hoje
Os edifícios originais não sobreviveram como estavam. A visita, portanto, pede imaginação histórica: não se trata de procurar um pátio intacto de 1847, mas de reconhecer como a cidade atual se sobrepôs aos lugares da primeira experiência.
Corso Vittorio Emanuele II, 13
San Giovanni Evangelista ocupa hoje o terreno do antigo Oratório. O altar e a abside estão sobre a área do primeiro pátio.
Abrir no mapaVia Ormea, 4
O Oratório Salesiano San Luigi mantém atividades educativas em San Salvario. Consulte a instituição antes de uma visita.
Site oficialVia Santa Giulia com via Tarino
A esquina preserva a referência urbana da antiga sede de Vanchiglia, embora o edifício do Oratório não permaneça como era.
Abrir no mapaPiazza Santa Giulia, 7 bis
A igreja e o oratório paroquial de Santa Giulia se tornaram a nova referência religiosa do bairro no fim da década de 1860.
Abrir no mapaAntes de ir: este artigo não informa horários de abertura. Igrejas e oratórios são espaços vivos, com atividades próprias; confirme o acesso nos canais institucionais.
Uma obra que aprendeu a caber em mais de um endereço
São Luís e o Anjo da Guarda nasceram de histórias diferentes. Um foi aberto por Dom Bosco para aproximar o Oratório dos jovens do sul de Turim. O outro veio da iniciativa pioneira de Dom Cocchi e entrou na órbita de Dom Bosco em um momento de crise.
Os dois, porém, revelam a mesma urgência: ir ao encontro dos jovens onde eles estavam. Capelas pobres, pátios apertados, aulas elementares, canto, ginástica, teatro e ajuda material formavam respostas muito concretas a uma cidade em transformação.
Valdocco deu ao Oratório uma casa. Porta Nuova e Vanchiglia mostraram que seu espírito podia atravessar Turim.
De onde vem esta história
Qui è vissuto Don Bosco
Aldo Giraudo e Giuseppe Biancardi, capítulo 3.7, “Gli altri Oratori di Don Bosco”. O texto italiano fornecido para esta edição foi consolidado, traduzido e adaptado ao português.
Giovenale Dotta — primeira parte
Estudo em Ricerche Storiche Salesiane, 28 (2009), sobre os primeiros decênios dos dois oratórios e suas fontes.
Giovenale Dotta — segunda parte
Continuação publicada em Ricerche Storiche Salesiane, 29 (2010), com atenção especial a São Luís e Leonardo Murialdo.
MuseoTorino — Oratorio di San Luigi
Ficha do local, da transferência para via Ormea e das atividades educativas promovidas no século XIX.
Treccani — Il clero novatore
Contexto dos oratórios, do catolicismo social e das diferentes opções pastorais de Cocchi, Murialdo e Dom Bosco.
Oratorio Salesiano San Luigi
Canal institucional que confirma a continuidade da obra e o endereço de via Ormea, 4.