Uma partida que começou em Turim
Em 11 de novembro de 1875, a Basílica de Maria Auxiliadora, em Valdocco, tornou-se cenário de uma despedida. Dom Bosco enviou dez Salesianos à Argentina, sob a liderança de Dom João Cagliero.
O rito de envio em Turim e o embarque em Gênova, em 14 de novembro, são momentos diferentes da mesma viagem. O grupo chegou a Buenos Aires em 14 de dezembro de 1875. A precisão das datas evita reduzir a primeira expedição a uma única cena: houve preparação, despedida, travessia e, depois, o encontro com uma realidade que ainda precisavam aprender a conhecer.
Dom Bosco orientou os recém-chegados a cuidar primeiro dos imigrantes italianos e a preparar, com tempo, a aproximação à Patagônia. O trabalho inicial se concentrou em comunidades e obras educativas na Argentina. A presença no sul do país se desenvolveria nos anos seguintes, em meio a enormes distâncias e a relações complexas com os povos indígenas e com o Estado argentino.
O que foi a primeira expedição? O envio de dez Salesianos por Dom Bosco à Argentina em 1875. Não foi a chegada imediata à Patagônia nem o início de todas as missões salesianas ao mesmo tempo.
João Cagliero levou Valdocco consigo
Cagliero havia crescido no ambiente do Oratório. Conhecia a combinação de escola, trabalho, música, vida comunitária e cuidado pastoral que Dom Bosco cultivara em Turim. Ao escolhê-lo, o fundador confiou a liderança a alguém formado diretamente nessa experiência.
Sua biografia ajuda a dar rosto à primeira expedição: o jovem de Castelnuovo d’Asti tornou-se missionário, depois bispo ligado à Patagônia e, mais tarde, o primeiro cardeal salesiano. No artigo dedicado a João Cagliero, esse percurso é contado a partir de suas raízes piemontesas e dos lugares de Valdocco.
O gesto de 1875 também transformou o significado da casa de Dom Bosco. Valdocco continuou sendo um lugar de acolhida local, mas passou a ser ponto de formação e envio. A missão já não cabia apenas no mapa de Turim.
Da América do Sul à Ásia e à África
Dom Bosco organizou novos envios à América do Sul antes de morrer, em 1888. Em 1877, as Filhas de Maria Auxiliadora também iniciaram sua própria viagem missionária, dando à expansão salesiana uma presença feminina decisiva na educação e na vida das comunidades.
O primeiro envio
Dez Salesianos partem de Valdocco com João Cagliero e chegam a Buenos Aires em dezembro.
Uma missão em família
As Filhas de Maria Auxiliadora iniciam seu caminho missionário na América.
A abertura asiática
Dom Luís Versiglia conduz a primeira expedição salesiana à China, já depois da morte de Dom Bosco.
Novas presenças
O Projeto África impulsiona comunidades educativas em países como Quênia e Tanzânia.
A chegada à China foi parte desse segundo tempo da história. Em 1906, Dom Luís Versiglia conduziu o primeiro grupo salesiano ao país. Décadas depois, sua vida se cruzaria com a do padre Calisto Caravário, nascido em Cuorgnè, no Piemonte. Os dois morreram em 1930 durante uma visita pastoral, quando tentaram proteger três jovens cristãs.
Essa trajetória reúne obras de educação, formação profissional, evangelização e serviços comunitários. Também pede leitura histórica cuidadosa: cada região tem povos, línguas e memórias próprias. A história missionária não deve apagar a voz das comunidades locais nem tratar o encontro entre culturas como uma via de mão única.
O que significa uma expedição hoje?
Em 2025, ao celebrar os 150 anos da primeira partida, a Congregação Salesiana informou presença em 137 países e preparou sua 156ª expedição missionária. Esses números descrevem aquele ano; não são uma contagem automática para 2026. O marco importante é a continuidade do envio e a mudança de perspectiva: novos missionários vêm de todos os continentes e partem para todos eles.
A missão atual envolve educadores, comunidades locais e jovens que respondem a desafios próprios de cada lugar: acesso à formação, migração, pobreza, conflitos e oportunidades de futuro. A geografia já não se resume a missionários europeus indo a outros continentes. O intercâmbio entre Igrejas e culturas é parte explícita da proposta contemporânea.
Um exemplo recente dá concretude a essa presença. Em setembro de 2026, a Agência iNfo Salesiana relatou o acompanhamento de 19 participantes de centros de formação profissional no Benim, na Guiné, no Mali e no Senegal para transformar competências adquiridas em planos de negócio. É uma ação local, apresentada aqui como exemplo, não como retrato de todos os países onde os Salesianos atuam.
Na comemoração de 2025, a Família Salesiana resumiu sua reflexão em três verbos: agradecer, repensar e relançar.
Síntese editorial do tema da Jornada Missionária Salesiana 2025; não se trata de citação literal.“Repensar” é uma palavra necessária. Permite reconhecer o valor de escolas e obras sociais e, ao mesmo tempo, examinar criticamente as relações históricas com culturas indígenas e os limites de práticas antigas. Uma missão fiel ao cuidado de Dom Bosco pelos jovens precisa escutar quem encontra.
O que o Museu Casa Dom Bosco conserva das missões?
O Museu Casa Dom Bosco, em Turim, tem uma sala dedicada às missões salesianas. O próprio museu identifica entre as peças expostas o globo de mesa original de Dom Bosco e a batina de Dom Luís Versiglia, missionário e mártir na China. A vitrine dos mártires aproxima a história das expedições das pessoas que a viveram.
Na mesma memória visual está a fotografia histórica de Dom Bosco com os integrantes da primeira expedição de 1875, reproduzida na abertura deste artigo. Segundo a informação fornecida para esta edição, o original está em exibição no museu. Trata-se de um retrato do grupo antes da viagem, não de uma fotografia do momento litúrgico da despedida. Entre os primeiros missionários retratados estava João Cagliero; em outra geração, Versiglia e Calisto Caravário levariam a missão à China.
Três histórias, uma mesma pergunta
O mês missionário oferece um bom caminho de leitura. Este panorama mostra as mudanças de escala desde 1875. A história de João Cagliero apresenta o primeiro líder; a de Luís Versiglia e Calisto Caravário leva à China e ao testemunho dos dois mártires.
Em todas elas, a pergunta é concreta: como uma casa nascida para acolher meninos de Turim se tornou uma rede internacional sem perder de vista cada pessoa? A resposta não cabe em uma data ou em um número. Ela passa pelas escolhas dos missionários, pelas comunidades que os acolheram e pelos jovens que continuam a dar novo sentido à missão.