Uma vida começa em La Cecca
Em 1º de abril de 1788, na pequena Capriglio, nasceu Margherita Occhiena. Em português, a família salesiana a conheceria como Mamãe Margarida. Era filha dos agricultores Melchiorre Occhiena e Domenica Bossone e recebeu o batismo no mesmo dia em que nasceu.
O texto de Teresio Bosco abre essa história com o choro decidido de uma recém-nascida. Havia alegria naquela casa, mas também a memória de crianças que tinham morrido muito cedo. A irmã Marianna, alguns anos mais velha, tornou-se companheira de uma amizade que atravessaria a vida. Outros irmãos e irmãs também fariam parte daquele cotidiano familiar.
Margarida nasceu na localidade de La Cecca, entre bosques, vinhas e trechos ensolarados das colinas do Monferrato. Daquela paisagem, o olhar podia alcançar a direção de Morialdo e dos Becchi. A menina ainda não tinha como imaginar que um dia atravessaria esse território para formar ali sua própria família.
Um terreiro cheio de infância
As lembranças reunidas na biografia devolvem movimento à casa rural: crianças correndo entre galinhas e patos, gatos escapando das mãos pequenas, pombas levantando voo. A mãe e a avó acompanhavam as brincadeiras e os primeiros aprendizados. O trabalho da família e a vida dos animais compunham o mundo conhecido por Margarida.
Ela não frequentou a escola nem aprendeu a ler e escrever. Para compreender sua trajetória, é preciso lembrar as poucas oportunidades de instrução oferecidas às meninas camponesas naquele ambiente. Sua formação passava pela convivência, pela observação, pelo trabalho e pela transmissão oral da fé. Entre as primeiras palavras ensinadas em casa estavam as da Ave-Maria.
A ausência de escolarização não significa ausência de inteligência ou de cultura. Mais tarde, Margarida mostraria memória, capacidade de decisão e sensibilidade para reconhecer as necessidades das pessoas. Essas qualidades cresceram dentro de um mundo rural com seus conhecimentos, seus limites e suas dificuldades.
A menina diante dos cavalos
A tranquilidade doméstica convivia com a violência das campanhas militares que alcançaram o Piemonte no fim do século XVIII. Tropas circulavam pelos caminhos, requisitavam alimentos e traziam medo às famílias. A biografia situa nesse contexto uma cena da infância de Margarida, por volta dos onze anos.
Ela guardava espigas de milho que secavam ao sol quando um grupo de cavaleiros russos entrou no terreiro. Os cavalos começaram a comer a colheita. Margarida gritou, agitou os braços e protestou com os soldados, que riam da sua indignação. Segundo o relato, a menina tomou então um forcado e fez os animais se afastarem; os cavaleiros correram atrás deles.
O episódio chega até nós pela memória biográfica salesiana. Seu interesse está no retrato de uma criança que compreende o valor do alimento e reage diante da perda do trabalho familiar. A coragem que a narrativa reconhece nela voltará a aparecer, de outras formas, nas decisões da mulher adulta.
Uma infância dentro da história
Margarida cresceu durante os conflitos que acompanharam a expansão francesa na Itália. A guerra alterava a vida dos povoados, os caminhos e a segurança das colheitas. A biografia recorda também o banditismo e o sofrimento causado por grupos armados, sem que seja necessário transformar essa infância em uma sucessão de cenas de combate.
Anos mais tarde, as leis francesas alcançariam até o registro civil de seu casamento. A história europeia passava por aquela família de agricultores em documentos, impostos, recrutamentos e ausências. Mas foi no pequeno círculo da casa, entre Marianna, os pais, as orações e as tarefas, que Margarida começou a formar sua maneira de estar no mundo.
O cuidado com o alimento, a força para reagir às dificuldades e a fé aprendida em família aparecem nas primeiras lembranças de Margarida.